Mães e ciclistas: a rotina de quem pedala com os filhos


Postado por: Luísa Alves - 26. maio 2016

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Quanto mais quilômetro de ciclofaixa são construídos, mais magrelas nas ruas. Ou seria o contrário: quanto mais gente andar, mais espaço se abre para os adeptos. Seja como for, a gente acredita numa cidade para pessoas e como uma bike na rua é uma carro a menos, partiu pedalar!

Andar de bicicleta pelas ruas em SP, mesmo com ciclofaixas espalhando-se em várias regiões, ainda é um desafio. Mas pode se tornar um ato de cidadania diário. Conversando com mães ciclistas a gente entende que o exercício delas não está só no corpo. Carregar o próprio peso, bike e filhos pra lá e pra cá, aumenta a responsabilidade, mas é uma ótima oportunidade de praticar exemplos de humanidade.

Ensinando através do pedal

Sílvia Ballan, bicicloativista e criadora do Blog Sílva e Nina, já é ciclista muito antes de se tornar mãe, pedala com Nina desde a gravidez. Acredita que ensina muito à filha quando ela está na cadeirinha. “Ensino a ser cidadã. Respeitar o próximo. Ela vê a mãe fazendo isso todos os dias. Ela faz comigo, ela fala, ela estimula, somos uma só quando juntas na bike, como se a sintonia fosse única. Idosos, faixa de pedestres… por todo caminho tem o respeito sempre. As noções de cidadania são até citadas pelos professores da escola.”

Para Cristina Varino, que usa a bike como transporte desde 2010, além de cidadania, acredita que mostra a importância da saúde à filha Cecília: “Eu acredito que ela esteja interiorizando o hábito saudável de nos locomovermos de forma econômica, prática, rápida, independente, isso sem falar no condicionamento físico. E também o respeito e a tolerância, pois eu pratico o “ciclismo gentil”, dou sempre prioridade ao pedestre, agradeço sempre que o pedestre se afasta ou um motorista me facilita a passagem e procuro sempre explicar às pessoas que estão paradas no lugar errado, de forma educada.”

Para segurança, mais do que capacetes 

A mobilidade com as filhas faz com que tenham cuidado redobrado. “Sozinha sou eu, responsável por uma vida, numa bike, outra pegada e equilíbrio. Com a Nina não. Não pedalo entre carros, ou quase não pedalo, e divido entre calçada, asfalto, ciclovia… Procuro trajetos mais arborizados no verão e mais calmos sempre. O ponto de equilibrio muda completamente e a vida que carrego não pediu para estar ali, devo-lhe total responsabilidade.” – diz Sílvia. Como mãe, Cristina também se preocupa com a qualidade do ar ao qual a filha fica exposta. “Já cheguei a colocar uma máscara para que ela não respirasse tanta poluição.”

O que dizem nas ruas

E sobre a exposição, o retorno da opinião pública por onde se chega fica mais audível. Apesar de algumas situações desagradáveis como a história de Cristina “fui xingada de louca por transeuntes e um motoqueiro certa vez me abordou (me fechando), dizendo que eu era uma inconsequente por trazê-la na cadeirinha, a nível de bate boca mesmo”, a ciclista diz que a maioria elogia, parabeniza e se motiva a fazer o mesmo. Por onde Sílvia e Nina passam “Muitos sorrisos e muitas perguntas. Sempre digo que preciso fazer um cartão com fone e nome. Ou camiseta… adesivo. Falo com tanta gente que perco as contas. Adoro o que eu faço e isso transpira por onde vamos, nos caminhos que realizamos juntas.”

Antes de começar, informe-se

Para Silvia, a cultura da bicicleta é tão presente em sua vida que rendeu até um site (https://silviaenina.org) com relatos, eventos e muitas pautas sobre mobilidade urbana. Ela diz que para alguém que queira iniciar o transporte de bike com os filhos basta querer e gostar. “São muitas dicas. Eu indico me procurar. E assim conversamos pra eu sentir quem é esta mãe, ou pai. Na maioria são mães que me procuram. Nós falamos desde cadeirinha, quadro da bike, primeiros passeios em ruas calmas, sobre a coluna do bebê e quando pode começar a ir em cadeirinha.” Cris complementa que vale desabafar sobre o receio que sentirem. “Se for uma mãe medrosa como eu era, treinar no quarteirão em dias tranquilos – eu andava aos domingos pela manhã com a pequena, para me habituar ao peso e ao equilíbrio de dois corpos.”


Fotos:  Blog Sílva e Nina


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Sobre Luísa Alves

Gaúcha que ama São Paulo e mora a cerca de 4 anos na capital. É mãe da Aurora e trabalha, além da maternidade, com mídias sociais.