Livro infantil Pode Pegar! aborda com simplicidade estereótipos de gênero


Postado por: Luísa Alves - 6. out 2017

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Um coelhinho de saia, batom e sapatinho de salto. Outro coelhinho de botas, calça e gravata. Assim fica fácil saber quem é menina e quem é menino! Mas e quando a menina quer usar botas pra atravessar o riacho? E quando o menino precisa do salto pra ficar mais alto? Batom serve pra desenhar? E esse chapéu, é de quem? Trocar de roupa é divertido! E agora, como faz pra saber quem é menina e quem é menino? Bom… Mas isso importa mesmo?

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A escritora e ilustradora Janaina Tokitaka lançou pelo selo Boitatá o livro Pode pegar!, que aborda de forma sutil e encantadora os costumes culturais relacionados à identidade de gênero. Escrito para crianças em fase de alfabetização, o livro tem como protagonistas um coelhinho e uma coelhinha que não veem problema em trocar de roupa um com o outro, ainda que estas remetam a universos bastante distintos: o masculino e o feminino. Brincando com os estereótipos, a autora e ilustradora – que começou sua carreira na Folhinha e hoje é autora de mais de quarenta livros infantis – levanta a pergunta: o que faz de uma roupa “de menino” ou “de menina”?

Entrevistamos Janaína para saber um pouco mais sobre sua atuação junto do tema com as crianças.

De onde surgiu a ideia de um livro para tratar do assunto?
Como muitas mulheres, tenho pensado bastante sobre igualdade de gênero. Acho que é um tema importante e que abordá-lo desde a infância pode fazer diferença no modo como as crianças irão se enxergar e agir quando adultas.

De que forma as questões de gênero pode ser abordada entre as crianças de forma leve?
Acho que a chave é utilizar um registro que elas entendam, por exemplo, a partir da brincadeira e as assegurando que adequação restrita de gênero não é uma preocupação que elas devam ter. O título do livro diz tudo: é afirmativo, positivo. É um livro que diz “Pode Pegar.”, pode ser como quiser. É preciso entender que a brincadeira e o faz de conta, para a criança, são momentos poderosos e que devem ser respeitados e aproveitados. Um menino se fantasiar de fada, por exemplo, nunca deve ser encarado como algo nocivo ou perigoso. Ao contrário, é bem saudável e comum.

Será que é preciso que haja interesse no assunto ou discussões a partir deles para que pais e professores abordem depois? Como pode ser feito de maneira leve?
Como todo tema que os adultos percebem como difícil, eu tendo a achar que a criança indica bem o limite do que ela consegue entender ou do que interessa a ela. Por exemplo: Uma criança pergunta para a mãe se indivíduo X, uma pessoa trans, é menino ou menina. Ela responde “menina”. Se a criança parar por ali e não perguntar mais, devemos respeitar o fato de que ela ficou satisfeita com a resposta. Se continuar perguntando, continuaremos respondendo. Geralmente somos nós que temos mais entraves ou levamos “peso” à discussão.

Como os pais devem atuar sobre as condições de gênero das crianças?
Acho que é importante que os pais fiquem atentos e prestem atenção. Parece óbvio, mas muitas vezes reproduzimos comportamentos que reforçam estereótipos de gênero e não nos damos conta disso, de tão introjetados que estão. Estimular o desenvolvimento afetivo de meninas e estimular o desenvolvimento motor-espacial de meninos parece natural: oferecemos bonecas às primeiras e carrinhos e bolas aos segundos, mas porque não apresentar as duas possibilidades aos dois gêneros? Outra coisa costumamos fazer, sem pensar muito no que estamos fazendo é só elogiar a aparência das meninas. “Que menininha bonita!” é muitas vezes a primeira interação que temos com crianças do gênero feminino que acabamos de conhecer. Não há nada de errado em elogiar a aparência de uma criança, mas se só reforçamos isso, ela vai crescer colocando um peso imenso nessa característica. Quando nos forçamos a ir um pouco além desse primeiro elogio, acabamos inclusive percebendo outras características da criança: que ela gosta de ler, que é perceptiva, inteligente, habilidosa, criativa, etc.

Como a escola pode atuar também nesse sentido?
Assim como os pais, prestando atenção e oferecendo variedade de atividades e temas para os dois gêneros, de maneira igualitária. A escolha de livros é um bom exemplo. A maioria dos protagonistas de histórias de aventuras, por exemplo, é menino. É interessante pensar em pesquisar obras que fujam um pouco dessa regra. Respeitar as escolhas individuais dos alunos, quando possível, também é bom. As vezes os professores não tem más intenções, mas reproduzem frases e comportamentos que reforçam estereótipos de gênero, como “isso não é jeito de uma menina se comportar” ou “você já é um homenzinho, não pode ficar chorando desse jeito” e etc.


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Sobre Luísa Alves

Gaúcha que ama São Paulo e mora a cerca de 4 anos na capital. É mãe da Aurora e trabalha, além da maternidade, com mídias sociais.